A transformação do campo por meio da mecanização

Autor: Antonio Carlos Botelho Megale

Disponível na Plataforma OLHARES PARA 2030: DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (clique e conheça esta importante contribuição ao futuro da agricultura Brasileira)

Nos primórdios eram as mãos a cavar, colocar as sementes e fechar com um pouco de terra. Depois, com a prática, tivemos a adição dos pés no momento de espalhar a terra.

Na evolução da agricultura, fomos para o plantio em áreas molhadas junto aos rios. Mais tarde improvisamos pequenos pedaços de pedras ou de madeira pontudas na difícil escavação do solo.

Os primeiros saltos de produtividade ocorrem quando introduzimos o animal no preparo da terra, de sulcar para plantar e de auxiliar na colheita. Mesmo assim era cansativo e muito pouco produtivo.

A invenção dos motores é o primeiro passo para a chegada dos equipamentos agrícolas. Dali para a adição de um banco para o tratorista, depois a cobertura e finalmente o desenvolvimento de ferramentas especiais para arar, semear e adubar foi um rápido avanço.

Os saltos de produtividade, no entanto, surgem após a Segunda Guerra Mundial, quando a grande capacidade industrial ociosa e a necessidade de produzir mais alimentos fez com que a criatividade na produção das armas se convertesse em genialidade no desenvolvimento de sistemas sofisticados para utilização agrícola.

Uma infinidade de tratores, semeadeiras, plantadeiras e colheitadeiras surgiram para uma verdadeira guerra contra a fome.

Livros que previam a grande fome mundial, baseados em estudos que ignoravam os avanços da produtividade agrícola, tornaram-se obsoletos. E hoje a produção agrícola em todo o mundo – se não houvesse desperdícios – seria mais do que suficiente para evitar a fome em qualquer parte do planeta.

No Brasil fomos mais lentos. Como a primeira cultura real foi a da cana-de-açúcar e depois do café, ficamos com sistemas arcaicos de cultivo durante décadas.

O fim da escravatura e o início da importação de colonos europeus e asiáticos é o princípio de uma importante mudança na administração das grandes fazendas. Novos sistemas de trabalho, modelos diferentes de administração, investimentos em produtividade e melhoria da terra permitem os primeiros saltos.

Mas os avanços realmente ocorrem a partir do momento em que a arte de produzir no campo toma um caminho mais científico com a implantação da Embrapa. E com a consciência de que a transformação do Brasil em celeiro do mundo só aconteceria com a adoção de práticas modernas de mecanização agrícolas, desenvolvimento de novas sementes, mais resistentes e adequadas ao clima brasileiro e aos seus tipos de solo, preparação adequada da terra – correta adubação e rotação de plantio – e observação dos tempos certos de colheita, além de armazenagem e transportes mais adequados.

Mais ainda: era fundamental mudar a maneira de pensar e agir dos agricultores. Feiras agropecuárias, escolas de agronegócio – de cursos técnicos a universidades –, seminários e ciclos de estudos, apenas para citar alguns exemplos, tudo contribuiu para a evolução dos agricultores para empresários do agora denominado agribusiness.

Tal evolução foi acompanhada sempre pela indústria de máquinas com modelos cada vez mais potentes e sofisticados. Do antigo e pequeno cultivador motorizado, passamos para tratores cada vez maiores. Do mero assento para o tratorista para sofisticadas cabines com ar condicionado e comandos eletrônicos.

Até chegarmos aos tratores autônomos, que podem inclusive ser programados para operar por sistemas eletrônicos comandados via satélite. Dessa forma, o trabalho pode ocorrer dia e noite e de tem uma produtividade altíssima.

O antigo homem do campo com chapéu de palha e desinformado do resto do mundo hoje negocia as commodities em conexão direta com a Bolsa de Chicago. Acompanha as tendências climáticas com links com os principais institutos do mundo, participa de feiras e simpósios onde verifica as novas tendências.

A evolução do sistema de produção, a administração cada vez mais adequada desse tipo de negócio, a mecanização agrícola cada vez mais intensa e a preocupação com a implantação de modernas práticas de plantio e colheita elevaram o Brasil, em uma velocidade bastante rápida, a um dos principais produtores mundiais de produtos agrícolas.

Tal rapidez só foi possível pela mecanização agrícola.

Mercado

O mercado também passou por grandes transformações no decorrer dos anos. As vendas internas de máquinas agrícolas e rodoviárias saltaram de patamares da faixa de 10 mil unidades comercializadas na década de 1960 para o impressionante marco histórico de 84,4 mil unidades negociadas em 2013.

Com a dificuldade econômica vivida pelo país a partir daquele ano e a queda no nível de confiança do consumidor e empresários, as vendas de produtos agrícolas recuaram e encerramos 2016 com 43,7 mil unidades, mesmo tendo registrado uma ótima safra e excelentes condições de financiamento.

Porém 2017 terminou com dados positivos: foram 44,4 mil unidades vendidas, o que representa aumento de 1,5% frente aos números de 2016.

Agora para 2018 a expectativa é de alta de 3,7% nos negócios chegando a 46 mil unidades. Ainda estamos longe de alcançar nosso marco histórico, mas, para voltarmos a um ritmo acelerado de crescimento, é preciso parar de cair. Esse passo já foi dado.

As exportações de máquinas agrícolas e rodoviárias também mostraram dados positivos no balanço de encerramento do ano. Foram 14,1 mil unidades negociadas com outros países, elevação de quase 47% sobre as 9,6 mil de 2016.

Esse resultado é fruto do esforço das empresas em conquistar novos mercados e aumentar sua participação em países até então não muito explorados. O aquecimento da economia dos nossos vizinhos latinos também teve forte peso neste desempenho – para a Argentina, por exemplo, o crescimento das exportações foi de 195% em 2017.

Para este ano, a estimativa é de aumento de 9,9% nas vendas para outros mercados, atingindo 15,5 mil unidades exportadas.

Com isso, a produção também será impulsionada. Encerramos o ano passado com 55 mil unidades fabricadas, expansão de 1,8% frente as 54 mil de 2016. Para este ano, o salto esperado é de quase 12% e devemos terminar o ano com 61,5 mil unidades.

A indústria automobilística brasileira acredita fortemente no potencial de crescimento do país e o setor de máquinas agrícolas tem mostrado ainda mais possibilidades.

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra 2016/2017 foi recorde com 238 milhões de toneladas. Para a safra atual, a expectativa é um pouco mais baixa, próxima de 230 milhões de toneladas, o que seria a segunda melhor da história. Em outras palavras, é um número bastante robusto para a economia, agricultura e país.

Se considerarmos as possibilidades de ganhos de produtividade, aumento de área cultivada e avanço da tecnologia, o potencial desse setor para o Brasil é enorme.

Por essa razão, as empresas continuam investindo em novas tecnologias, em um trabalho conjunto e criativo dos times de engenharia e desenvolvimento para desenvolver e entregar produtos mais eficientes, modernos e que possibilitem mais rendimento para o agricultor.

No ano passado, as máquinas agrícolas fabricadas no Brasil passaram a atender à legislação de emissão de poluentes do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve). A etapa do programa tem o nome de MAR-1 – abreviação de Máquinas Agrícolas e Rodoviárias Fase 1 – e foi publicada em 2011 na Resolução Conama 433/2011.

Seguindo um calendário de introdução gradual de tecnologias, os fabricantes tiveram tempo e previsibilidade para preparar e desenvolver produtos que atendessem a legislação.

Desde o ano passado, todos os modelos de máquinas agrícolas de 101 a 761 cavalos entraram no programa. A partir de 2019, todos os modelos com potência igual ou superior a 25 cavalos e até 101 cavalos passarão a atender às exigências.

Com a medida, os fabricantes reduzirão as emissões de monóxido de carbono (CO), hidrocarbonetos (HC), óxidos de nitrogênio (NOx) e material particulado (MP). Se comparada com motores não certificados ou não regulamentados, a redução da poluição de material particulado da fase MAR-1 pode chegar a 85% e a de NOx até 75%.

O mundo está em constante evolução e os fabricantes de máquinas estão correspondendo aos avanços. Nós acreditamos no papel do Brasil como potência agropecuária e temos como objetivo entregar ao consumidor o que há de melhor, mais moderno, mais eficiente e mais sustentável. Afinal, produtividade, competitividade e sustentabilidade são pilares comuns de todos os que têm ligação com o campo.

Fonte: OLHARES PARA 2030: DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Autor: Antonio Carlos Botelho Megale

Sobre o Autor: Antonio Carlos Botelho Megale, 61, é presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, Anfavea, e do Sindicato Nacional da Indústria de Tratores, Caminhões, Automóveis e Veículos Similares, Sinfavea, para a gestão 2016-2019. Graduado em engenharia mecânica automotiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduado em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV), Megale também é diretor de assuntos governamentais da Volkswagen do Brasil desde 2008. Foi presidente da AEA de 2011 a 2014 e é vice-presidente da Anfavea desde 2006.

Sobre a Plataforma OLHARES PARA 2030: DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL – Lideranças nacionais e internacionais e especialistas de diferentes áreas de atuação apresentam, aqui, projeções e expectativas de caminhos possíveis para o desenvolvimento sustentável da agricultura brasileira.

Essas ideias estão dispostas na forma de artigos de opinião, pautados pelos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, da ONU. Eles foram agrupados em Megatendências identificadas pela Embrapa no estudo Visão 2030: o futuro da agricultura brasileira, o qual sintetiza as principais forças de transformação da agricultura brasileira para os próximos anos.

Você também pode conferir quem são os autores, acessando a lista completa dos textos.

Texto originalmente publicado em:
EMBRAPA
Autor: Plataforma OLHARES PARA 2030

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